Jacarandás
Ginástica rítmica à revelia do poder autárquico
Comecei hoje a ler este livro cuja narradora faz anos hoje. Os alinhamentos cronológicos são muito satisfatórios. Os fenómenos extemporâneos são-no ainda mais. Da floração dos jacarandás no outono já falei aqui. O tempo tanto se molda às urgências da natureza como fica rígido no nosso calendário, com as notificações a apitar, indiferentes ao facto de termos tido uma jantarada ou de terem marcado a greve geral para o dia em que estou em teletrabalho. É protesto se ninguém repara nele? Respeito e desrespeito o tempo, consoante posso. Gosto muito de relógios mas deixei de os usar.

No exame de História do 12º ano, esta imagem ilustrava uma das perguntas. Não me lembro do teor da questão. Nem da nota que tive. Lembro-me da imagem e de ter sido a última vez que vi alguns dos amigos do tempo do liceu. Quando ando na rua acontece cruzar-me com adolescentes e achar por um instante que são esses colegas. Esqueço-me que não ficaram nos anos 90, com a mesma cara, as mesmas calças de ganga. A verdade é que os nossos filhos quase não se distinguem de nós (ok, fumam canetas eletrónicas em vez de tabaco). Está tudo bem, é um truque que arranjámos para dobrar o tempo.


Ah, "dobrar o tempo" é a minha deixa para partilhar, pela centésima vez, o meu poema preferido:
se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio
de outro modo como poderia
a eternidade deslizar
(da inger christensen)
(quando me apaixonei por este poema, a neve era só uma memória distante, de um daqueles sítios onde quem deslizava de um lado para o outro eram umas pessoas muito motivadas e eternidade nem vê-la. Mas depois encontrei a neve, a minha, e era mesmo assim)