solteiras, casadas, viúvas
o estado civil das #bruxas
Na apresentação do seu Ghost Stories, Siri Hustvedt falou um bocadinho do estigma sobre a palavra “viúva”. A cena vem no livro. Alguém lhe teria dado as condolências sobre a morte do marido e, quando ela respondeu “sou uma viúva”, a pessoa disse “não, não digas isso”, como se a apalavra carregasse algum estigma1.
Há algo nesta negação apressada e Siri tem razão, tem a ver com um estigma.
O objetivo do “não , não, não” muito rápido é proteger-nos do estigma que aquelas palavras arrastam consigo; é atirado como um contrafeitiço, um antídoto, antes que as palavras nos transformem na realidade que descrevem — mesmo quando a realidade a que se referem, como no caso da viuvez, é inegável.
A teoria dela sobre este estigma é que as mulheres viúvas são mulheres à solta, desprendidas do patriarcado, e que isso as torna ameaçadoras. Não sei se partilho a sua tese2, mas foi assim que chegámos às bruxas: Siri contou que na caça às bruxas foram queimadas muitas viúvas, mas muito poucas mulheres casadas. As bruxas eram quase todas mulheres sem dono.
Mas não eram umas mulheres sem dono qualquer: eram mulheres que tinham tido dono e o tinham perdido. Diferentes portanto no seu âmago das mulheres solteiras, que ainda podiam andar à procura de dono, ou pertencer ao pai. As viúvas não, Deus as livre. Eram livres e sabiam.
A exceção à predileção por mulheres desamarradas, contava ela, era uma comunidade à beira-mar na Noruega, em que os homens estavam ausentes por períodos muito longos. Tempo suficiente para, nalguns casos, descobrir que a própria mulher era uma bruxa e denunciá-la.
(Um bocado excessivo, não é? O divórcio salva vidas, não duvidem.)
Lembrei-me agora do estado civil das bruxas porque são quatro da manhã, estava a mudar uma cama de criança e pensei: nenhuma bruxa tinha filhos, pois não?
Fui ver ao catálogo de filmes da Disney3 e nada, de todas as vilãs, só a mãe da Cinderela tinha filhas4. E fez-me muito sentido porque, mesmo nunca tendo sido casada, acho que as crianças nos amarram muito mais ao sistema do que o casamento. São mais definitivas, também: podemos deixar de ser casadas e até deixar de ser viúvas, mas não deixamos de ser mães.
As mães são as antibruxas.
(as filhas não sabem, claro, e continuam a tentar denunciar-nos à Inquisição várias vezes ao dia. Tu és tão má, mãe, és mesmo má. Eu sei minha filha, eu sei, sou uma bruxa.)
Extra, extra (juro que não foi de propósito): hoje saiu uma entrevista da Siri Hustvedt ao Público, que vale muito a pena.
Mais ou menos como quando eu digo “sou gorda”, e toda a gente diz “aí não, fortezinha”, ou o eufemismo que entretanto estiver em voga.
A minha tese pessoal é que “viúva” é um estado estranho porque, tal como divorciada ou separada, é um estado que se define em relação ao que já foi. Na minha cabeça, uma viúva é uma solteira.
Cada uma com as suas fontes, imagino que as da Siri fossem melhores.
Muito curiosa com este livro, que imagino que seja ideal para as férias. Tenho tido muitas desilusões com estes clássicos instantâneos da literatura anglosaxónica, mas desde que decidi antecipá-los todos como leituras ligeiras tenho-me divertido muito.



Gostei desta interpretação. Fiquei agora com uma dúvida sobre em que categoria me incluir. :) Há uns tempos fiquei a dever um lanche na pastelaria perto de minha casa porque o multibanco não funcionava. Fui lá mais tarde pagar e foi outra pessoa que me atendeu, que olhou para um papel e disse-me quanto devia. Perguntei-lhe em que nome tinham tomado nota pois já imaginava que tivessem escrito "mulher do Sr. J. deve 4 euros". E era o que lá estava, mas agora já sabem o meu nome. No entanto, sobre a minha dúvida, sendo eu madrasta também poderia ser uma bruxa, certo? :) Madrasta é um nome terrível, não sei como é que ainda não se inventou outro que não derive deste.
Constatei agora o que sempre esteve à minha frente: de facto, qs bruxas das histórias (que me recorde) nunca têm filhos.