shhhh, shhhh
um texto sobre #ruído, à boleia do vento
Estou sentada num jardim, depois do almoço, no dia da greve geral. O vento abana as árvores de forma simultaneamente suave e forte e o resultado extraordinário é uma Natureza que se ouve.
Todo o salgueiro vai para a esquerda — shhhhh. Regressa à posição inicial — sshhhh. Agora uma brisa que atinge apenas a ponta mais alta de um plátano muito alto — o seu som é como um crepitar.
(Observo, ouço, penso e tenho mil ideias que se encadeiam umas nas outras.
Conheço este efeito e tenho escrito sobre ele. Depois de Deborah Levy, Siri Hustvedt, de novo. Antes delas, muito antes, a primeira, Doris Lessing e o seu Caderno Dourado. Não sei se não prefiro ainda a poesia e a ficção, mas a autoficção biográfica escrita por mulheres brilhantes convoca-me e agita-me de forma insuperável.)
O salgueiro de novo, shhhh, shhhh. Não sei porque lhe chamam chorão, deviam chamar-lhe sussurrador.
As árvores adultas são como o mar (são melhores que o mar?): uma forma da Natureza com uma vida inteiro lá dentro, casa comunitária do ecosistema, beleza generosa e ameaçada, ruído, força e calma.
Sou do vento. Gosto mais do vento do que do sol, da chuva, do calor ou do frio. Se tivesse muito dinheiro, afinal era isto que queria: um jardim cheio de árvores crescidas, para o vento as fazer falar.
Bem, isso e uma piscina, claro, porque a minha costela minhota não me deixa ir a lado nenhum sem revelar um bocadinho o seu pato-bravo interior. Todos temos um pequeno burguês dentro de nós, disse-me um dia um amigo. E tinha razão, mas não contem a ninguém.
Shhhh, shhhh.


Patos bravos social club: i'm in (a culpa será sempre das raízes minhotas).