Santuário
Sobre as pessoas-que-são-casa
O que é para ti um dia bom?, pergunta a Inês Meneses aos seus convidados do Fala com ela. É uma pergunta difícil, quase todos levam já a resposta ensaiada. Fico a pensar. O que seria um dia bom para mim?
É tão complicado conseguir encaixar tudo o que gosto num só dia. Gosto de acordar sozinha, de aproveitar o silêncio, de ler enquanto tomo o pequeno-almoço. Mas também gosto de acordar acompanhada, de começar o dia a enroscar-me nele, de tropeçarmos todos na cozinha de manhã enquanto tiramos canecas do armário. Tenho a sorte de gostar do meu trabalho (o que é diferente de gostar do meu emprego) e, sim, há momentos em que o trabalho pode ser realmente incrível. Mas adoro estar de férias e ter dias inteiros para encher só com coisas boas. Descobrir novos lugares, sentar-me à mesa com os meus amigos, ir ao cinema ou ver um espectáculo ou assistir a um concerto, petiscos na esplanada numa tarde de verão, ter uma boa conversa com os meus filhos, caminhar sozinha a ouvir os passarinhos e o bater do meu coração, dar abraços demorados, ficar só estendida no sofá a ver uma série da Netflix, um almoço de família em casa da minha irmã, ler na praia, ler em lugares diversos, estar na praia até ao pôr-do-sol, cozinhar com calma enquanto o spotify me dá música, experimentar pratos esquisitos num restaurante novo, passar horas a folhear álbuns de fotografias, dançar na pista de uma discoteca, ficar de pijama em casa num dia de chuva, adormecer sem ter hora para acordar, custar a adormecer com a excitação de ter um avião para apanhar na manhã seguinte. Um dia é pouco para tanta coisa, não é?
Uma coisa sei: os dias melhores são sempre aqueles em que consigo estar com alguma(s) das minhas pessoas-casa a fazer seja o que for. Por muito que precise estar sozinha de vez em quando, não são esses os momentos que me ocorrem quando penso nos meus dias bons, os dias mais felizes, aqueles que vou recordar quando for velhinha.
As minhas pessoas são o meu santuário.


