Menina e moça
Sobre um coelhinho mau
O bairro está um alvoroço. Há um burburinho constante, um movimento que faz lembrar os dias de jogo, só que não há multidões embrulhadas em cachecois vermelhos, pelo contrário, vê-se gente (muito pouco) vestida de todas as cores do arco-íris. Ontem de manhã, mudei o percurso da caminhada para passar pelo estádio e já havia miúdos nas filas, a dormitarem estendidos nos passeios. Antevendo a confusão fiquei a trabalhar em casa. Com a janela aberta, para tentar sobreviver ao calor, acompanhei o souncheck, a música ambiente ao longo da tarde, a banda com nome esquisito que tocou na primeira parte e, por fim, a gritaria infernal quando, às nove horas, pontualíssimo, começou o concerto de Bad Bunny. Não foi tão barulhento quanto os Rammstein em 2023. Não houve nenhum fenómeno sísmico como com a Taylor Swift em 2024. Mas, mesmo à distância, dava para sentir a alegria e o entusiasmo daquelas 60 mil pessoas que cantaram do princípio ao fim durante mais de duas horas e meia. Nem fechando o vidro e a persiana me consegui abstrair do retumbar da música e do fogo de artifício.
Na semana passada, enquanto investigava sobre o Benito Martínez, estive a ouvir as suas músicas. Não fiquei particularmente fã, devo dizer. Mas sei que, apesar disso, ter-me-ia divertido imenso no concerto, porque os concertos têm uma energia incrível e porque estar num estádio com milhares de pessoas a cantar e a dançar é uma experiência que mexe connosco de maneiras muito pouco racionais. Goste-se ou não daqueles ritmos caribenhos, Bad Bunny é um performer extraordinário e, ainda por cima, tem o coração no lugar certo e traz uma mensagem de amor e de comunidade, que tanta falta fazem por estes dias.
Por isso, não estou lá, mas, da minha janela, estou a desfrutar do momento.
Só espero que as pessoas que vão hoje ao concerto já estejam a aprender os versos da Lisboa, Menina e Moça, de Carlos do Carmo (letra de Joaquim Pessoa e Ary dos Santos e música de Fernando Tordo e Paulo de Carvalho). Ensaiem bem o refrão para ver se esta noite a coisa corre melhor.
Menina e Moça foi tema do largo a 8 de maio, mas este texto foi escrito no dia 27. Fica a explicação para a posteridade.


