Largo
É a mesma coisa todas as manhãs de semana, em julho. Vou à varanda regar o meu tomateiro e espreito o cimo da rua, o largo onde, com sorte, conseguimos estacionar. Àquela hora já há choro. Debatem-se bebés de chucha e os seus irmãozinhos mais velhos, agarrados a peluches. Alguém tenta, com a maior paciência do mundo às oito da manhã, convencê-los a entrar no carro para irem para o infantário. Guincham. Pedem a mãe. Roxos, transpirados. Coitadinhos. Tenho mesmo muita pena que, chegada esta altura do ano, ainda haja tantas crianças pequeninas que não chegaram às férias. Porque os próprios pais têm de esticar 22 dias por ano, claro. Nem com a maior das imaginações isso dá para oferecer aos mais miudinhos um Verão inteiro descalços, de papo para o ar, apesar de isso dever constituir um direito humano fundamental.
A piedade por estes rebentos inocentes é a única coisa que me dá alguma tolerância aos nossos quatro já um pouco menos inocentes rebentos, cujos corpanzis adolescentes vivem escarrapachados pela casa, durante o que parece ser uma eternidade. Os adultos tomam duche, vestem as peças de roupa necessárias para poder sair de casa e depois têm de fazer gincana por entre seres que se erguem das tumbas à força da fome e do calor. De tronco nu, com sorte banhados recentemente, dobram-se pela cintura para dar beijinhos de bom dia. A cozinha tem sempre pelo menos três pessoas, um microondas a trabalhar, a porta do frigorífico aberta, um tablet e várias garrafas de água à espera que haja mais gelo feito. O sofá é tomado de assalto. Os quartos fervem, apesar de ficarem na penumbra até quase ao pôr do sol. Felizmente esta geração tem uma coisa muito boa chamada auscultadores, o que faz com que praticamente só se ouça monossílabos e a ventoinha. Depois os adultos desaparecem durante nove horas e, por milagre, a casa está intacta ao final do dia, se não contarmos o eventual prato partido e a comida que desapareceu. Abrimos as janelas e jantamos com a luz do dia. Já disse que gosto muito do Verão?

