Está bem, abelha
...e com esta me vou, de cabeça bem erguida
“Está bem, abelha” é uma maneira muito airosa de terminar discussões intermináveis, quando já tudo foi dito e o debate entrou numa dinâmica de círculos em sulcos cada vez mais fundos.
Aquele “abelha” é de quem não percebe nada de Biologia, porque, de facto, o bicho certo é “melga”. É, portanto, uma desistência acompanhada de um insulto levezinho (abelha, esse animal tão simpático e útil) que nos permite sair da discussão de cabeça erguida.
Muito melhor que o “leva lá a bicicleta”, que nos obriga a regressar a pé à casa de partida.
Mas não chega aos calcanhares do que eu dizia ao meu filho a rir, quando percebia que os argumentos de um rapazinho de oito anos eram melhores que os meus: “Oh, pouco barulho! Não me lembro de te ter pedido a opinião sobre este assunto…” - ele percebia que ganhara a contenda, mas eu saía com o ego inteiro, e até reforçado por esta afirmação de autoridade e liberdade de escolher as guerras em que me meto.
Corria sempre bem - mas foi só até ao dia em que ele debateu com um homem muito mais velho, e, ao dar-se conta de que os seus próprios argumentos eram fraquinhos, lhe disse, esquecendo completamente o sorriso maroto que deve acompanhar a frase, “Oh, cala-te! Não me lembro de te ter pedido a opinião!” - deixando esse meu amigo de longa data pasmado com a falta de educação dos meus filhos.
Fala-se tanto sobre os complexos registos de cortesia na cultura japonesa, mas eu cá suspeito que isso não é nada comparado com a sensibilidade que é preciso ter, na cultura portuguesa, para sair airosamente de uma discussão sem acabar a dar a bicicleta ou a mandar passear a abelha.
Mais concretamente: a sensibilidade que é preciso ter para sair airosamente de uma discussão com um eleitor do Chega, que acredita piamente que, “por causa dos muçulmanos, é impossível ir a Lisboa sem ser assaltado”. Ainda agora me aconteceu, e não houve abelha nem bicicleta que me valesse.

