As bruxas
Uma vez por ano, fazemos uma viagem os quatro. Todos dão palpites para onde querem ir, somos uma família muito democrática, e depois vamos onde eu quero.
Este ano foi difícil a escolha, já me arrependi e ainda estamos a uma semana de apanhar o avião. A minha filha fez uma campanha cerrada pela Grécia, sempre foi fanática pela mitologia grega, essa fonte de prevaricação. Mas eu já lá fui, tentem compreender, numa outra vida, fiquei lá bastante tempo e aproveitei bem. Foi há uns trinta anos e com o boom de tourismo que entretanto houve não me apetece ir lá voltar e estragar as memórias. Ela vai ter de arranjar outra maneira de ver onde os deuses encontravam maneiras de violarem mulheres sem que elas percebessem.
Vamos a Cabo Verde, às ilhas de São Vicente e Santo Antão. Tem havido um grande boicote a África nesta família, porque nāo tem templos como a Ásia, porque não tem museus sobre a história dos povos antes da colonização como a América da Sul, e porque não é barato como a Índia.
Fugi durante muito tempo de Africa, eu também, evitei durante cinquenta anos ir ao país onde nasci. Mas África é tanta coisa, e eu não quero deixar nada por viver que seja tudo isso, ainda por cima.
A questão é chegar onde eu quero. Em Moçambique falhei os curandeiros, substituidos pelas igrejas importadas, falhei as lendas, as histórias, falhei o essencial, mesmo que tenha acertado tanto. E, acima de tudo, mesmo que tenha sido acertada por demasiado.
No Senegal, à entrada de um antigo forte um senhor que passava, já muito farto de turistas, disse-me que se eu quisesse saber mais, o melhor seria ir ao arquivo das bibliotecas em Paris e aos museus que mostravam o que lhes tinha sido roubado pelos franceses. Pensou que eu fosse francesa e eu arquei com as culpas dos outros, como se fosse uma grande. Tenho muitas culpas, umas herdadas, outras começadas por mim desde o início, mais uma não faz grande diferença e em troca percebi melhor como ó mundo é feito.
Comecei à procura das histórias de Cabo Verde, que já estou a ver que não vou encontrar por lá. Vi o maravilhoso filme Hanami filmado na ilha do Fogo onde não vamos. E parei num documentário que encontrei no YouTube sobre as bruxas da Ribeira de Janela na ilha de Santo Antão.
É muito mais interessante o que se adivinha do que o que se pode ver. Sempre foi. As máquinas fotográficas são apenas um apoio, os olhos um complemento, a gastronomia um desvio. O que eu procuro quando viajo é sempre a magia e as lendas, o inimaginável que se ousou criar.
Tudo o que fica comigo mesmo quando julgo ter tudo esquecido.


